A B3 informou em 23 de julho que o volume de registros de negócios de títulos privados no Trademate chegou a R$ 797 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 40% sobre os R$ 569 bilhões do mesmo período de 2025. O número de registros avançou 39%, de 2,34 milhões para 3,25 milhões de operações. Para o investidor, esse crescimento é uma sinalização positiva: mais negociação tende a ampliar referências de preço, reduzir assimetrias e favorecer o desenvolvimento do mercado secundário. O cuidado é não transformar um dado agregado de infraestrutura em conclusão automática sobre a liquidez de qualquer debênture, CRI ou CRA específico.
Liquidez é local. Ela depende de quantidade em circulação, dispersão de investidores, frequência de negociação, tamanho dos lotes, presença de compradores e vendedores, transparência de preços e condições do emissor. Dois títulos incluídos na mesma estatística de volume podem ter comportamentos completamente diferentes na hora de vender. Um papel pode negociar diariamente com spreads estreitos; outro pode passar longos períodos sem negócios ou exigir desconto significativo para encontrar contraparte. A estatística agregada mostra evolução do ecossistema, mas o custo de saída continua sendo uma característica individual do ativo.
Essa diferença é particularmente relevante em um ambiente de Selic a 14,25% ao ano. Com o retorno livre de risco elevado, o prêmio necessário para aceitar iliquidez também tende a ser maior. Não basta receber alguns pontos adicionais se a posição exigir carregamento compulsório até o vencimento ou se uma venda antecipada puder ocorrer com desconto superior ao prêmio acumulado. A comparação correta precisa incorporar o horizonte de investimento e a probabilidade de precisar de caixa antes do vencimento, e não apenas a taxa indicada no momento da compra.
O programa de formadores de mercado anunciado pela B3 para títulos privados segue na mesma direção de aperfeiçoar preço em tela e presença de ofertas de compra e venda. Esse tipo de infraestrutura é importante porque permite reduzir o intervalo entre o valor teórico de um ativo e o preço efetivamente executável. Ainda assim, formador de mercado não elimina risco de crédito nem garante profundidade ilimitada. Em episódios de estresse, a liquidez costuma se retrair justamente quando aumenta a necessidade de venda, e títulos com estrutura complexa ou emissor fragilizado podem sofrer mais.
Para a gestão de carteira, isso significa que liquidez deve ser tratada como orçamento. Uma parcela pode ser alocada em ativos que pagam prêmio por menor negociação, desde que o investidor tenha caixa e horizonte suficientes para carregá-los. Outra parcela precisa permanecer em instrumentos com saída mais previsível. A composição também deve considerar vencimentos, amortizações e fluxos de cupom para evitar concentração de necessidades em um mesmo período. O objetivo não é maximizar liquidez em todos os ativos, mas ser remunerado adequadamente quando se abre mão dela.
O crescimento do Trademate é um sinal de amadurecimento do mercado de crédito privado brasileiro. A consequência correta para o investidor, porém, é usar a nova informação de preços para refinar a análise, não presumir que todos os títulos se tornaram líquidos. Volume agregado melhora o mapa; a decisão continua sendo tomada papel a papel, considerando spread, risco de crédito, duration e capacidade real de saída.
