A B3 informou em 23 de julho que o volume de registros de negócios de títulos privados no Trademate alcançou R$ 797 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 40% sobre os R$ 569 bilhões registrados no mesmo período de 2025. O número de registros subiu 39%, de 2,34 milhões para 3,25 milhões. A evolução é relevante porque um mercado secundário mais ativo tende a melhorar referências de preço e permitir que investidores ajustem posições com maior frequência. A liquidez, porém, depende da informação que sustenta o preço. Quanto menos compreendido o ativo, maior a diferença entre uma cotação indicativa e o valor pelo qual alguém efetivamente aceita comprá-lo.
A formação de preço no crédito privado reúne curva de juros, spread de crédito, prazo e expectativa de recuperação. O primeiro componente é observável e relativamente padronizado; os demais dependem de cada emissão. A Selic estava em 14,25% ao ano, enquanto o IPCA de junho havia recuado para 0,16%, com 4,64% em doze meses. Esse ambiente favorecia a discussão sobre cortes adicionais e reprecificação de renda fixa. Ainda assim, dois títulos com duration semelhante podem apresentar valores muito diferentes se suas garantias, documentação ou liquidez forem distintas.
A documentação jurídica influencia a liquidez de forma indireta, mas concreta. Um investidor secundário precisa confiar que o título representa um direito válido e que os mecanismos de cobrança e garantias descritos na emissão são utilizáveis. Quanto maior o custo de diligência para compreender a operação, menor tende a ser o universo de compradores capazes de precificá-la rapidamente. Transparência estrutural reduz esse custo e pode contribuir para spreads de negociação mais eficientes.
O programa de formadores de mercado anunciado pela B3 para títulos privados segue a mesma lógica ao incentivar presença de ofertas de compra e venda. Formadores ajudam a criar referência e reduzir intervalos de preço, mas não podem substituir qualidade do ativo. Em situações de estresse, o market maker também precifica risco e pode ampliar spreads ou reduzir quantidade. A liquidez permanente depende de participantes dispostos a assumir o risco, não apenas de infraestrutura tecnológica.
Para quem origina e securitiza recebíveis, o desenvolvimento do secundário cria incentivo adicional à padronização informacional. Eventos de pagamento, inadimplência, garantias e alterações de fluxo precisam chegar ao mercado de forma clara para que o preço acompanhe a realidade. Se a informação é tardia ou inconsistente, a negociação passa a incorporar desconto por incerteza. A governança da emissão torna-se parte da microestrutura de mercado.
O crescimento de 40% deve ser lido como amadurecimento, não como homogeneização. Mais negociação melhora o ecossistema e oferece ao investidor ferramentas melhores para comparar retorno e liquidez. A qualidade final do preço, contudo, continua ligada à capacidade de entender o crédito. Mercado secundário e estrutura jurídica convergem nesse ponto: liquidez é maior quando risco pode ser identificado, comunicado e transferido sem que cada negociação precise reconstruir a operação do zero.
