A B3 lançou em 1º de setembro uma dinâmica de call para NTN-B no Trademate com o objetivo de concentrar participantes, melhorar formação de preços e ampliar eficiência no mercado secundário. Embora a iniciativa seja voltada a títulos públicos indexados à inflação, ela ilustra um ponto que também importa no crédito privado: preço não é apenas uma fórmula de valor presente. O valor econômico de um ativo depende de existir mercado capaz de transformar referência teórica em execução, com quantidade e spread compatíveis com a necessidade do investidor.

Essa distinção ganhou relevância à medida que o mercado de renda fixa corporativa cresceu. O estoque de produtos de dívida corporativa havia alcançado R$ 2 trilhões em março, e o volume registrado de títulos privados no Trademate cresceu 40% no primeiro semestre. Mais ativos e mais negócios melhoram a qualidade das referências, mas não eliminam diferenças de liquidez entre emissões. Um título pode ter taxa indicativa atualizada e ainda assim exigir desconto relevante para uma venda de volume significativo.

A duration amplia esse efeito. Quanto maior a sensibilidade do preço a mudanças de taxa, mais importante é distinguir uma oscilação causada pela curva de juros de uma oscilação causada pelo spread de crédito. Em um ciclo de queda da Selic, o investidor pode capturar valorização de títulos longos; se o spread do emissor abrir, parte ou todo esse ganho pode desaparecer. A marcação final é resultado das duas curvas, e não há razão para assumir que elas se moverão sempre na mesma direção.

A gestão de liquidez também precisa levar em conta o calendário dos passivos do próprio investidor. Um ativo que parece barato pode ser adequado para uma carteira capaz de carregá-lo até o vencimento e inadequado para outra que precisa de caixa em data incerta. Quando a liquidez é baixa, a liberdade de escolher o momento de saída diminui. O prêmio exigido por essa restrição deve ser comparado com a remuneração de instrumentos que oferecem flexibilidade maior.

Infraestrutura de negociação e formadores de mercado reduzem fricções, mas não eliminam eventos de estresse. Em períodos de aversão a risco, compradores se tornam mais seletivos e spreads podem abrir rapidamente, justamente quando a tentativa de venda aumenta. Por isso, o investidor deve avaliar a profundidade observada em condições normais e imaginar como a posição se comportaria em condições adversas. A ausência de negócios recentes pode ser uma informação tão relevante quanto uma taxa indicativa.

Um mercado maior e mais eletrônico é positivo porque melhora transparência e comparabilidade. A consequência prática, contudo, não é tratar todo ativo como líquido, mas usar melhores preços para medir com mais precisão o custo de carregar risco. Duration, spread e liquidez precisam estar no mesmo modelo de decisão.